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Utopia às avessas

Débora Rodrigues Santos virou a mártir da extrema-direita. Esquecem que ela postou vídeo após a balbúrdia do dia 8 de janeiro dizendo: “Quebramos tudo”. Ou seja, inserindo-se na turba que vandalizou os três Poderes da República, contrariando discurso da defesa de que não há provas de sua participação no quebra-quebra e, que por isso, uma pena de 14 anos de reclusão seria injusta.

Débora é mãe. Assim como muitas mães foram presas e torturadas na Ditadura Militar. Grávidas, inclusive. Da Paraíba, posso falar com certeza de que pelo menos uma grávida foi presa: Ana Rita, então esposa de Simão Almeida, que bem mais tarde foi eleito deputado estadual. Além dela, outras mães paraibanas, com certeza, também foram presas e torturadas.

Mães não são santas, não são inimputáveis, não estão acima do bem e do mal. Longe de ser uma velhinha com Bíblia na mão, Débora sabia muito bem o que estava fazendo. Fez questão de deixar sua marca num monumento caríssimo — caro no preço, e caro de querido à democracia e à justiça.

Avalia-se se a pena da cabeleireira é justa ou excessiva. Excessivo seria torturá-la, como num regime de exceção. Poderia ter sido menor? Poderia. Mas a medida foi justa, equivalente à turba que pedia um golpe contra o regime democrático de direito que elegeu Lula presidente. Se fosse na época da Ditadura, Débora lutando contra aquele regime, ela não estaria aqui para contar a história. E nem precisaria pichar nada. Bastaria estar junto aos depredadores, apoiando-os e incentivando-os.

Outra coisa: a anistia que se pede hoje em nada se parece com a anistia dos expulsos do país e dos seus empregos pelos ditadores de plantão naquela época. E ainda há quem acredite que não houve ditadura, embora o próprio então presidente Ernesto Geisel tenha reconhecido o regime como tal, ao informar que o país, doravante, teria uma lenta e gradual abertura política. Se haveria abertura, era porque, claro, óbvio, vivia-se um tempo fechado, um regime de exceção. 

O Brasil paralelo dessa gente que se compadece da escória bolsonarista que atacou os poderes da República é um Brasil de facínoras e de tolos. Todos vivendo num mundo fora da realidade, sonhando com uma utopia às avessas da idealizada por Thomas More. Brasil Paralelo é o nome perfeito do site queridinho dessa gente.

Podia ser diferente?

Débora aparece em outro vídeo, mais recente, mostrando-se arrependida de seus atos. Bom mesmo que se arrependa e que aconselhe a outros a não incorrerem na mesma sandice. Ou melhor, no mesmo crime. Mas esse arrependimento não implica redução de sua culpa e de seu mau exemplo, que precisa ser punido com o rigor que o zelo pela democracia merece.

O presidente da Câmara dos Deputados, o paraibano Hugo Motta (Republicanos), tem uma grande responsabilidade perante toda a Nação. Ou barra o projeto da anistia, já que ele não faz nenhum sentido, ou, uma vez pautado, não se incline em seu favor. Tentativa de golpe, golpeando fisicamente os três Poderes, é crime contra a democracia, que custou tantas vidas para ser conquistada. Uma democracia construída a duras penas, durante longos anos, não pode ficar exposta a um bando de vândalos enlouquecidos por um ideal obscuro. É claro que esse ímpeto golpista precisa ser contido. E com a vara da Justiça.

Não à anistia!

 

Por Gisa Veiga

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